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Carreira em Contacto (in Público)
22.12.2006
Foi em conversa com uma amiga que Renato Braz tomou conhecimento do Inov Contacto.
Na altura, dividia o tempo entre o último ano do curso de Engenharia Electrotécnica e um trabalho de voluntariado nos bombeiros da Figueira da Foz. Estava longe de imaginar que seria um dos escolhidos, mas quatro meses depois já estava sentado na sala de formação em gestão internacional, organizada pelo ICEP, ansioso por descobrir qual o destino que lhe calharia. "Foi tudo tão rápido. Nem tive tempo para pensar na oportunidade que isto significa para mim", diz. Regressou a Portugal há uma semana, após nove meses de estágio numa empresa de manutenção de maquinaria pesada, em Moçambique. Hoje tem "mais capacidade de sobrevivência" e "mais currículo". A viagem de volta para Maputo está marcada para Janeiro. O seu trabalho não passou despercebido e foi convidado a ficar pela JFS, uma empresa de técnica industrial, que representa marcas como a Mitsubishi e a Ford em Moçambique. A história de Renato Braz cruza-se com a de 1256 jovens que já fizeram parte deste programa, criado há quase dez anos pelo ICEP. Sob a alçada do Ministério da Economia e apoiado pela União Europeia e pelo PRIME (Programa de Incentivos à Modernização da Economia), o Inov Contacto tem como objectivo "dar formação internacional a jovens portugueses e integrá-los num mercado de trabalho competitivo, onde se destaquem e também dêem destaque a Portugal", explica Vera Sousa Macedo, coordenadora do programa. Os casos de sucesso são muitos. E, por isso, todos os anos chegam milhares de candidaturas às mãos do ICEP.
ESCOLHIDOS A DEDO Só para a edição deste ano, concorreram mais de três mil pessoas para apenas 186 vagas. Para Vera Sousa Macedo estes números têm uma explicação simples: "estamos num mercado de trabalho global, com maior abrangência e acessibilidade, e as pessoas querem ter uma carreira que não se cinja ao território nacional e testar a sua capacidade e disponibilidade para trabalhar no estrangeiro". A procura tem sido constante ao longo dos anos, mas a taxa de integração dos candidatos desde 1997 não chega a seis por cento. Os limites orçamentais e a escassez de recursos para a organização do programa estão na base deste problema. É por isso que o ICEP contrata uma empresa de selecção e recrutamento privada para fazer uma filtragem minuciosa das candidaturas. A avaliação dos jovens vai desde uma entrevista presencial a testes linguísticos por telefone, passando por dinâmicas de grupo, para escolher as pessoas com um perfil mais adequado a esta experiência. "Ambição, espírito de iniciativa e trabalho em equipa" são características mais valorizadas nesta fase, diz Vera Sousa Macedo. Pedro Matos foi um dos jovens que se conseguiu destacar na edição de 2005/2006. Aos 23 anos e com uma licenciatura em gestão de empresas na mão, decidiu candidatar-se ao Inov Contacto, por sugestão da irmã. "Já era o segundo ano que ela estava a tentar e tínhamos esperança de entrar os dois", conta. Daí a meio ano estavam ambos a fazer as malas para o Brasil. Pedro acredita que o facto de ter realizado uma análise financeira na faculdade sobre a Cimpor, mais tarde premiada pela editora Vida Económica, esteve na base da sua selecção. E, desde que chegou a São Paulo, tem-se esforçado por "aprender tudo o que pode e dar tudo o que tem à empresa" de materiais de construção, afirma. Está "muito satisfeito" com a integração na Cimpor e aplaude também o acompanhamento do ICEP no processo. Mas nem todos os processos de integração correm tão bem. O número de desistência por edição é muito baixo (entre uma a duas pessoas), mas há registos de mudança de empresa durante o estágio. Pedro Matos conhece alguns. "Custa ver colegas meus deixados ao abandono pelas empresas. A gratuitidade de participação no programa pode levar ao desperdício", acredita.
MUDANÇA DE ROTA Mas enquanto algumas pessoas se acomodam à situação e acabam por desaproveitar a experiência, outras tentam procurar alternativas no mercado onde estão inseridas. Foi o caso de Guida Pinto, uma aquitecta de 26 anos, também estagiária desta edição do Inov Contacto. Quando chegou a Xangai, em Fevereiro deste ano, deparou-se com "uma cultura completamente diferente", onde tinha de usar a mímica para ser compreendida e adaptar-se à uma comida que "detestava". Na empresa onde foi colocada, a Dedo Desing, um atelier de arquitectura italiano, tinha "um papel secundário" e, quando surgiu o convite de gerir um projecto noutro atelier não pensou duas vezes. "Sabia que seria enriquecedor e que o facto de ter essa experiência na minha curta carreira profissional subia a fasquia", conta. Com a ajuda do delegado do ICEP em Xangai e algum "jogo de cintura", conseguiu agarrar a oportunidade que a Finenco Desing lhe oferecia e esteve na empresa até ao final do estágio. Mas o carimbo do Inov Contacto consegue até ser mais poderoso na construção de uma carreira. A história de Nuno Sebastião e Ricardo Marvão é exemplo disso. Estagiaram no Centro de Operações da ESA (Agência Espacial Europeia) em 2002 e 2003, respectivamente. Foram convidados a ficar e decidiram ir ainda mais longe. Com o apoio do ICEP, da Embaixada de Portugal na Alemanha e da delegação portuguesa na ESA, criaram uma empresa de fornecimento de sistemas operativos e de simuladores. Actualmente, a Oristeba emprega seis pessoas e está em fase de alargamento do leque de clientes. "O nosso objectivo é ter uma facturação de um milhão de euros em três anos e vamos conseguir", assegura Ricardo Marvão.
REDE DE TALENTOS A taxa de integração de estagiários nas empresas participantes é de XX por cento (ICEP envia dado na segunda-feira). Até agora, o Grupo Amorim, a Logoplaste, o BES e a COBA são as entidades que mais jovens têm contratado. As mais-valias são evidentes: além de terem acesso a recursos humanos extensivamente seleccionados, com um perfil adequado às suas necessidades e a custo zero, por um período de nove meses, ainda podem reter talentos já familiarizados com o funcionamento da empresa. O Grupo Amorim está ligado ao Inov Contacto desde a primeira edição e integrou cerca de 70 por cento dos estagiários nas suas empresas, sobretudo em funções relacionadas com o negócio no estrangeiro. António Carlos Almeida, director de recursos humanos da Amorim Imobiliária, garante que "95 por cento dos casos foram boas experiências" e que estes jovens demonstram "ambição alta, foco na internacionalização e forte capacidade técnica". O BES seguiu o mesmo raciocínio quando decidiu contratar Henrique Relógio. Licenciado em gestão de empresas, este jovem, actualmente com 26 anos, foi seleccionado para a delegação do banco em Nova Iorque, nos Estados Unidos, na edição do Inov Contacto de 2003. A adaptação ao mercado financeiro norte-americano correu tão bem que foi convidado pelo banco a assumir o cargo de gestão de grandes contas internacionais, em Lisboa. Mostra-se "bastante satisfeito" com a possibilidade que o BES lhe ofereceu e diz estar "preparado e interessado" em voltar para o estrangeiro "caso o banco precise".
UM BOM PONTO DE PARTIDA Mas mesmo os que não conseguem ficar na empresa onde estagiam acabam por ter no Inov Contacto uma boa rampa de lançamento. "O facto de serem escolhidos para integrar o programa e de passarem por uma experiência internacional, normalmente num sítio com nome, abre-lhes logo imensas portas onde não conseguiriam chegar tão rapidamente", assegura Vera Sousa Macedo. Foi o que aconteceu com Rita Duarte. Fez parte da primeira edição do Inov Contacto e a sua carreira começou a definir-se a partir do momento em que estagiou na delegação do ICEP, em São Paulo, no Brasil. Continuou esse trabalho quando regressou a Portugal, dedicando-se sobretudo à área da promoção turística. Três anos e meio depois, com a reestruturação do organismo, passou para a Direcção Regional de Turismo, graças ao trabalho que tinha desenvolvido até então. E, agora, aos 30 anos de idade, faz assessoria no Ministério da Economia. "Como já conhecia bem a realidade do sector público fizeram-me este convite. Comecei com um bom pé e as coisas foram aparecendo", explica Rita Duarte. A rede de contactos que este programa proporciona é um dos seus bens mais valiosos. Após a participação no Inov Contacto, mantêm-se ligados a uma rede de oportunidades, a que muitos outros não têm acesso. No caso de Rita, essa oportunidade estendeu-se à vida privada. Um dos estagiários que entrou na primeira edição do programa é agora seu marido e muitos outros continuam a fazer parte do seu grupo de amigos. "O Inov Contacto não pode ser visto apenas como uma bolsa financeira. É um mundo de oportunidades e de conhecimentos que podem ser úteis para o resto da vida", diz Vera Sousa Macedo. A coordenadora do programa não faz contas às despesas do programa. Entre a contratação da empresa de selecção e recrutamento, as bolsas, os salários dos professores, as viagens e os portáteis atribuídos a cada estagiário, gasta-se "muito dinheiro", diz. Do total, 75 a 80 por cento é financiado pela Comunidade Europeia e o restante pelo Estado português, isto é, pelos contribuintes.
PASSOS FUTUROS Os novos estagiários já foram seleccionados e partem no início do ano para os seus destinos. Passaram por duas semanas intensivas de formação em gestão internacional e começam o estágio de um mês em território nacional em Janeiro, antes de rumarem ao estrangeiro. José Pereira, Diana Saleiro e Ana Filipa Marques fazem parte deste grupo, em que as expectativas estão altas. José tem 24 anos e é formado em Gestão Hoteleira. A partir de Fevereiro vai estar no México. E acredita que o Inov Contacto vai acelerar em força a sua progressão profissional. "Este programa dá-me a oportunidade de fazer a minha própria carreira em vez de esperar dez anos para sair da recepção de um hotel", afirma. Já Diana procura encontrar uma maior aposta nos recursos humanos do que existe em Portugal. A biologia, área em que é licenciada, está sempre em constante actualização, e esta jovem de 22 anos espera que a passagem por San Diego, na Califórnia, a coloque na primeira carruagem do comboio do conhecimento. Ana Filipa Marques não concorreu com tantas certezas. Como arquitecta, não conhecia ninguém que tivesse participado nas edições anteriores, mas o bichinho das experiências internacionais trouxe-a até ao Inov Contacto. Aos 30 anos, têm uma carreira espalhada por França, Cairo e Cabo Verde e agora vai seguir os passos de Guida Pinto, na Dedo Desing, em Xangai. A continuidade do Inov Contacto ainda é uma incógnita. Vera Sousa Macedo diz que com a mudança do quadro comunitário, a alteração da administração do ICEP e o final do Plano Tecnológico "pode haver modificações profundas". Mas ainda é cedo para prever se isso significa uma simples reestruturação do programa ou o seu desaparecimento.
Experiências e expectativas
ACTUAIS CONTACTO RENATO BRAZ, 26 anos, Figueira da Foz Local: Maputo, Moçambique Empresas: MozEquipments (Aluguer e manutenção de maquinaria pesada) e S&C (Gestão técnica de navios porta contentores) Formação: Engenharia Mecânica (Instituto Superior Técnico de Lisboa) Frase: "Não cresci tanto como técnico, mas sim como sobrevivente." Caixa: Chegou a Moçambique com a bagagem cheia de preconceitos. Mas assim que criou uma rotina nas caóticas ruas de Maputo, a resistência transformou-se em paixão, mesmo num país com contornos de corrupção e de insegurança muito acentuados. A experiência do InovContacto deu-lhe "uma hipótese de crescimento rápido que não teria em Portugal". Foi o braço direito do administrador da empresa de gestão de navios S&C durante quatro meses e chegou a ter a empresa nas mãos por duas semanas. Regressa a Moçambique em Janeiro, com um contrato de trabalho de um ano na mão.
PEDRO MATOS, 24 anos, Coimbra Local: São Paulo, Brasil Empresa: Cimpor (Materiais de construção) Formação: Gestão de Empresas (Faculdade de Economia de Coimbra) Frase: "Tive a sorte e o mérito de ser seleccionado. E agora sou mais flexível e estou mais bem preparado para novos desafios." Caixa: Foi provavelmente um trabalho da faculdade sobre o negócio da Cimpor que lhe valeu um estágio na delegação da empresa de materiais de construção em São Paulo, no Brasil. Mas a experiência internacional já não é novidade para Pedro Matos. Esteve na Bélgica ao abrigo do programa Erasmus e passou um ano em Londres, como consultor informático. No Brasil, encontrou novas formas de trabalhar e de viver. "Cada dia há um novo desafio, mas é tudo tratado com muito mais tranquilidade", conta. O acompanhamento da empresa foi crucial para a sua adaptação.
GUIDA PINTO, 26 anos, Lisboa Local: Xangai, China Empresas: Dedo Desing e Finenco Desing (ateliers de arquitectura) Formação: Arquitectura, Universidade Lusíada de Lisboa Frase: "Aprendi a falar uma língua nova, a viver numa cultura construtiva e a tomar decisões em cima da hora. Xangai nunca pára." Caixa: Candidatou-se ao Inov Contacto sem grandes esperanças de ser seleccionada. "Achava que era mais para licenciados em gestão e em economia. Já me tinha esquecido que tinha concorrido quando recebi um SMS para ir fazer os testes", conta. Poucos meses depois, estava a caminho de Xangai e, ainda o estágio ia a meio, quando recebeu o convite para gerir um projecto noutra empresa. "Foi preciso algum jogo de cintura e aprendi truques de diplomacia no processo", afirma. Estás prestes a abandonar o país, mas não por falta de oportunidades de emprego. Um problema de saúde de um familiar vai trazê-la de volta a Portugal, mas Guida garante que Xangai já faz parte da sua vida.
EX-CONTACTO RICARDO MARVÃO e NUNO SEBASTIÃO, 28 e XX anos Edição INOV Contacto: 2003 e 2002 Local|Empresa: Darmstadt, Alemanha | ESA Formação: Engenharia Informática (XXXXXX) e Engenharia Informática (Universidade de Coimbra) O que fazem agora: Conciliam o trabalho na ESA com um projecto próprio: a Oristeba Frase: "Se não tivéssemos entrado no Contacto, as nossas vidas teriam sido diferentes. Mas isto deu-nos um bom impulso." Caixa: Ricardo Marvão e Nuno Sebastião conheceram-se na ESA, em 2003, no âmbito do programa do ICEP. Após alguns meses e muitas horas de conversa, decidiram lançar-se num negócio os dois: uma empresa fornecedora de sistemas operativos e de simuladores. A Oristeba começou por um contrato de cinco anos com a ESA, ao qual se dedicavam quando saiam da agência, mas já ganhou um novo cliente de peso, a Eumetsat (organização europeia para a exploração de satélites de meteorologia), e emprega actualmente seis pessoas. O objectivo agora é "mostrar à ESA que estamos interessados em crescer e esperar que agarrem outros projectos nossos", diz Ricardo Marvão.
HENRIQUE RELÓGIO, 26 anos, Lisboa Edição INOV Contacto: 2003 Local|Empresa: Nova Iorque, Estados Unidos | BES Formação: Gestão de Empresas e Mestrado em Economia Internacional (Instituto Superior de Economia e Gestão) O que faz agora: Gestor de contas do BES Frase: "Em Nova Iorque não há dificuldades. Só há oportunidades." Caixa: O contacto com um mercado mais sofisticado e a diversidade da cidade de Nova Iorque marcaram profundamente Henrique Relógio. Durante o estágio do Inov Contacto, aprendeu que "impossible is not a fact, is an opinion" [o impossível não é um facto é uma opinião], conta. A experiência foi tão positiva, que o BES o convidou para integrar a equipa em Portugal e, agora, Henrique Relógio gere grandes contas internacionais do banco. "Só quem lá passa é que entende como é que eles conseguem ser tão produtivos. Não há obstáculos, só alternativas", termina.
RITA DUARTE, 33 anos Edição INOV Contacto: 1997 Local|Empresa: São Paulo, Brasil | ICEP Formação: Relações Internacionais (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas) O que faz agora: Assessoria do Ministério de Economia Frase: "Estava a trabalhar quando fui seleccionada. Mas achei que era mais interessante ter uma experiência lá fora do que ficar em Portugal." Caixa: Fez parte do primeiro grupo de estagiários que integrou o Inov Contacto, em 1997. Desde então, a vida de Rita Duarte deu muitas voltas, mas a experiência que teve no Brasil deu-lhe uma lição para a vida. "Aprendi a ter uma atitude mais positiva, a arranjar sempre resposta e a nunca ceder a obstáculos", afirma. De regresso a Portugal, a sua carreira passou pelo ICEP, pela Direcção Regional de Turismo e, agora, pela assessoria do Ministério de Economia. O lado pessoal de Rita Duarte também se modificou: conheceu o actual marido no decorrer do programa.
FUTUROS CONTACTO JOSÉ PEREIRA, 24 anos, Lisboa Formação: Gestão Hoteleira Frase: "Este programa dá-me a oportunidade de fazer a minha própria carreira em vez de esperar dez anos para sair da recepção de um hotel."
DIANA SALEIRO, 22 anos, Porto Formação: Biologia Frase: "A minha área está sempre a actualizar-se e preciso de estar em contacto com outras culturas e visões para me enriquecer, nem que seja só por um ano."
ANA FILIPA MARQUES, 30 anos, Coimbra Formação: Arquitectura (Universidade de Arquitectura de Coimbra) Frase: "Ser arquitecto é perceber os desejos do cliente. Quantas mais pessoas diferentes conhecer, mais capacidade de resposta vou ter na minha profissão."
[22-12-2006] [ Raquel Almeida Correia, Revista "Dia D", Público ]
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